“Aumentei o volume, mas a locução era em húngaro, única língua do mundo que, segundo as más línguas, o diabo respeita.”“Quando se abriu um buraco nas nuvens, me pareceu que sobrevoávamos Budapeste, cortada por um rio, O Danúbio, pensei, era o Danúbio mas não era azul, era amarelo, a cidade toda era amarela, os telhados, o asfalto, os parques, engraçado isso, uma cidade amarela, eu pensava que Budapeste fosse cinzenta, mas Budapeste era amarela.”
Budapeste foi o terceiro romance escrito por Chico Buarque, narrado em primeira pessoa pelo próprio protagonista, o ghost-writer José Costa, que nos conta os fatos que se sucedem em sua vida desde quando foi parar em Budapeste, devido a uma escala imprevista durante sua viagem de volta ao Rio de Janeiro.
José é casado com uma telejornalista, Vanda, com quem tem uma relação distante, e trabalha em uma empresa que foi aberta por ele em sociedade com um amigo da faculdade, onde seu trabalho é escrever textos que serão assinados por outras pessoas, por isso ele se mantém um escritor anônimo. A ida inesperada a Budapeste ocorre exatamente quando ele está voltando de um encontro anual de escritores anônimos.
Dentre seus escritos anônimos, está um livro encomendado por um alemão, intitulado “O Ginógrafo”, um relato “auto-biográfico” que tem início no momento em que o alemão chegou à Baía de Guanabara, onde perdeu todos os pêlos e começou a escrever um livro na pele de mulheres, sendo a primeira Teresa, que o abandonou. O livro, depois de pronto, foi considerado “absolutamente admirável”
Após escrever o livro para o alemão, José, enquanto passeia pela cidade, decide comprar passagens para voltar a Budapeste para si e para sua esposa, que se recusa a acompanhá-lo e segue viagem para Londres. É nessa viagem para Budapeste que o protagonista conhece Kriska, que o ajuda a aprender o idioma húngaro e com quem acaba vivendo um romance.
No livro são narradas histórias que renderiam outros três ou quatro. A história de um homem que se aventura em uma paixão com sua professora de húngaro, a história de um homem que se sente ofuscado diante do sucesso de sua esposa, a história de um homem que se dá ao trabalho de sentir na pele as sensações que pertencem a terceiros e ainda as coloca no papel ou, ainda, a história do alemão que escrevia um livro na pele de suas amantes.
Budapeste poderia ser um livro comum, desses que são indicados a estudantes do ensino fundamental, mas Chico Buarque nos fez o favor de enriquecê-lo com tantas histórias contidas em um só livro pequeno, que tem menos de 200 páginas, sem precisar dividi-las em pequenos contos. A escrita de Chico Buarque, sem a separação entre diálogos e parágrafos, facilita o fluxo de leitura. Além disso, a sequência dos fatos não confundem o leitor, o que pode ocorrer ao ler “Estorvo” ou “Leite Derramado”, outros romances de autoria do autor.
Ou seja, “Budapeste” é um ótimo livro, que, apesar de não ter sido escrito em húngaro, merece ser respeitado até pelo diabo.
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