terça-feira, 20 de setembro de 2011

Budapeste

“Aumentei o volume, mas a locução era em húngaro, única língua do mundo que, segundo as más línguas, o diabo respeita.”

“Quando se abriu um buraco nas nuvens, me pareceu que sobrevoávamos Budapeste, cortada por um rio, O Danúbio, pensei, era o Danúbio mas não era azul, era amarelo, a cidade toda era amarela, os telhados, o asfalto, os parques, engraçado isso, uma cidade amarela, eu pensava que Budapeste fosse cinzenta, mas Budapeste era amarela.”
Budapeste foi o terceiro romance escrito por Chico Buarque, narrado em primeira pessoa pelo próprio protagonista, o ghost-writer José Costa, que nos conta os fatos que se sucedem em sua vida desde quando foi parar em Budapeste, devido a uma escala imprevista durante sua viagem de volta ao Rio de Janeiro.
José é casado com uma telejornalista, Vanda, com quem tem uma relação distante, e trabalha em uma empresa que foi aberta por ele em sociedade com um amigo da faculdade, onde seu trabalho é escrever textos que serão assinados por outras pessoas, por isso ele se mantém um escritor anônimo. A ida inesperada a Budapeste ocorre exatamente quando ele está voltando de um encontro anual de escritores anônimos.
Dentre seus escritos anônimos, está um livro encomendado por um alemão, intitulado “O Ginógrafo”, um relato “auto-biográfico” que tem início no momento em que o alemão chegou à Baía de Guanabara, onde perdeu todos os pêlos e começou a escrever um livro na pele de mulheres, sendo a primeira Teresa, que o abandonou. O livro, depois de pronto, foi considerado “absolutamente admirável”
Após escrever o livro para o alemão, José, enquanto passeia pela cidade, decide comprar passagens para voltar a Budapeste para si e para sua esposa, que se recusa a acompanhá-lo e segue viagem para Londres. É nessa viagem para Budapeste que o protagonista conhece Kriska, que o ajuda a aprender o idioma húngaro e com quem acaba vivendo um romance.

No livro são narradas histórias que renderiam outros três ou quatro. A história de um homem que se aventura em uma paixão com sua professora de húngaro, a história de um homem que se sente ofuscado diante do sucesso de sua esposa, a história de um homem que se dá ao trabalho de sentir na pele as sensações que pertencem a terceiros e ainda as coloca no papel ou, ainda, a história do alemão que escrevia um livro na pele de suas amantes.
Budapeste poderia ser um livro comum, desses que são indicados a estudantes do ensino fundamental, mas Chico Buarque nos fez o favor de enriquecê-lo com tantas histórias contidas em um só livro pequeno, que tem menos de 200 páginas, sem precisar dividi-las em pequenos contos. A escrita de Chico Buarque, sem a separação entre diálogos e parágrafos, facilita o fluxo de leitura. Além disso, a sequência dos fatos não confundem o leitor, o que pode ocorrer ao ler “Estorvo” ou “Leite Derramado”, outros romances de autoria do autor.
Ou seja, “Budapeste” é um ótimo livro, que, apesar de não ter sido escrito em húngaro, merece ser respeitado até pelo diabo.

domingo, 18 de setembro de 2011

Ensaio Sobre a Cegueira

Obra escrita pelo respeitado escritor português José Saramago e ganhadora do Nobel de Literatura do ano de 1998, foi publicada no ano de 1995 e adaptada para o cinema em 2008. O ensaio narra o drama de pessoas que são afetadas inesperadamente por uma “cegueira branca”, contagiosa e inexplicável até mesmo para os cientistas. Em virtude disso, os infectados são isolados pelo governo em um manicômio abandonado, com o intuito de evitar novos contágios. No local, eles lutam pela sobrevivência como animais, travando guerras pelos alimentos que são enviados, passando a agir muito mais por instinto do que pela razão.
Dividido em capítulos sem título, que marcam a mudança de cenário, carrega consigo a grande particularidade da escrita de Saramago, que é a reorganização das normas gramaticais quanto ao uso da pontuação, o que facilita a leitura, pois aproxima a escrita da fala oral e, ao mesmo tempo, confunde o leitor com seus parágrafos que chegam a ter o tamanho de um capítulo.
O livro de Saramago é tido por muitos como impiedoso e tal ocorre porque durante toda a narração é possível sentir a agonia das pessoas que estão no "ostracismo" e passam a viver em condições sub-humanas, em meio a seus próprios excrementos. É percebida a construção de uma nova sociedade, formada majoritariamente por cegos, com leis e divisão social próprias, onde é deixada de lado a individualidade - as pessoas sequer tem um nome, são conhecidas apenas por suas características principais, como “Rapariga de Óculos Escuros”, ou “Mulher do Médico”. Além disso, o autor expõe indiretamente as características de nossa própria sociedade, tão criticada por ele, como a competição, a inveja, o egoísmo e a traição. Por isso mesmo, quando foi questionado sobre a brutalidade de seu livro, Saramago respondeu com outra pergunta: vocês não conseguem ler este livro, mas conseguem viver neste mundo?
Ou seja, a brutalidade do livro não é nada quando comparada à brutalidade do nosso próprio cotidiano. Se você vive neste planeta, não é tão difícil acompanhar o drama vivido pelos personagens do livro. A leitura de José Saramago deveria ser um imperativo a todos, não apenas por ser um ganhador de um Nobel, mas porque ele faz questão de expor as grandes mazelas de nossa sociedade, ainda que com uma carga de ironia. Recomendo a todos os terráqueos, sem restrições, que reservem um tempo de suas férias para a leitura de “Ensaio Sobre a Cegueira”, já que é necessário ter tempo e paciência para acompanhar o estilo de escrita de Saramago e interpretar a mensagem que ele quer nos passar.

sábado, 10 de setembro de 2011

O Barão nas Árvores

"Passou anos e anos na floresta
Andou léguas e léguas sobre as folhas
Construiu sua casa feito ninho
Beijou sua mulher perto das nuvens
Um concreto bordado nas alturas
Com manobras de amor no precipício"

(Sobre as Árvores - Cordel do Fogo Encantado)

"A mesa era o lugar em que vinham à luz todos os antagonismos, as incompatibilidades entre nós e também todas as loucuras e hipocrisias; e por que justamente à mesa se determinasse a rebelião de Cosme. Por isso entro em detalhes no relato, pois de mesas postas não ouviremos mais na vida de meu irmão, isso é certo."

"O Barão nas Árvores" foi o segundo livro da trilogia "Os Nossos Antepassados" a ser publicado. As obras não formam uma sequência lógica, foram classificados como uma trilogia pelo próprio autor, que disse que eles mostram o processo de formação do homem moderno - alienado, dividido e incompleto.

O romance é narrado por Bágio, irmão do protagonista, que nos conta a vida de Cosme, uma criança rebelde que está sempre discordando das regras impostas pelos seus pais: o Barão de Rondó, homem obcecado pelo título de duque, e a Generala Corradina, que almejava uma carreira militar para seus filhos.
A história tem início no momento quando Cosme, aos 12 anos, recusa-se a comer os escargots e é expulso da mesa pela sua teimosia. O menino corre para o jardim, onde sobe em um Carvalho e diz que jamais descerá das árvores.
Até então, tudo parece apenas um capricho infantil e todos duvidam de sua capacidade de se manter ali por muito tempo, mas a situação se torna preocupante depois de alguns dias. Cosme estava decidido a não deixar o topo das árvores e aprendeu a sobreviver, conseguindo todos os elementos essenciais sem precisar tocar os pés em terra firme, desde alimentação até vestimentas.
Apesar de viver de modo não-convencional, jamais esteve completamente isolado da sociedade, pulando de galho em galho ele acompanhava toda a movimentação da região de Penúmbria, interagindo com as pessoas que por ele passavam e, assim, fazendo amigos e inimigos.

A história de Ítalo Calvino parece ser apenas uma fábula infanto-juvenil, principalmente quando é apresentado apenas um resumo como esse acima, mas vai muito além da rebeldia de um pré-adolescente que resolve fugir de casa por estar descontente com os pais. O livro mostra as dificuldades enfrentadas por Cosme no processo de adaptação ao meio em que passou a viver e as transformações que ele sofreu, desde as físicas até as psíquicas. Cosme é obrigado a enfrentar situações adversas, como a chuva, em condições que quase impossibilitam sua sobrevivência e a presença de elementos que colocam em risco sua vida, como animais selvagens, além de conhecer a realidade das relações humanas, como a deslealdade, a infidelidade, o banditismo e o falso julgamento. Mas nem só de momentos ruins é feita a narrativa, foi em cima das árvores que ele aprendeu, também, sobre a amizade e o amor, com todas as parcerias que ele firmou durante a vida.

Ou seja, como o livro é pequeno, a leitura é simples e a história é interessantíssima, recomendo a leitura aos que querem aproveitar os poucos momentos vagos com a literatura sem precisar passar meses com o mesmo livro.

Blogspot, aqui me tens de regresso

Na minha desbiografia, contam-se quatro ou cinco blogs que acabaram sendo abandonados, cada um com uma temática diferente e, ao mesmo tempo, todos iguais. Hoje, como graduanda em Jornalismo, lancei um desafio a mim mesma: o de atualizar este novo blog pelo menos uma vez na semana (para iniciar) e, em algum momento, passar a atualizá-lo todos os dias.

Provavelmente, não conseguirei, mas desafios são lançados para serem quebrados.

Renata.